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Sobre julgamentos, filme “Perfeita é a Mãe!” e a imagem que viralizou na internet

Sobre julgamentos, filme “Perfeita é a Mãe!” e a imagem que viralizou na internet

Comportamento, Perrengue

No final da semana passada fui assistir com uma super amiga uma comédia que fala sobre o mundo materno: “Perfeita é a Mãe!”. O título em inglês é “Bad Moms”, ou literalmente “Mamães Ruins”, o que já nos leva ao tema que gostaria de falar com vocês…

O filme é muito divertido, dos mesmos produtores do “Se beber, não case!”, ou seja, você dá muita risada. Mesmo assim, trata de um tema tenso: o julgamento materno.

Veja a sinopse: Uma mulher (Mila Kunis), com vida aparentemente perfeita – bom casamento, filhos exemplares, ótimo emprego, etc – acaba ficando estressada além do ponto com as obrigações domésticas. Cansada da situação, ela se une a duas outras mulheres (Kathryn Hahn e Kristen Bell) que passam pelos mesmos problemas e juntas iniciam uma intensa jornada de libertação.

Ao ler a sinopse, entenda “vida aparentemente perfeita” e “obrigações domésticas” como julgamento materno. Sim, no fundo o filme trata disso: mães julgando outras mães.

Por que é tão difícil aceitar as imperfeições? Será que alguém consegue atingir o nível de expectativa e perfeição que exigimos das outras mães?

É claro que julgamos outras pessoas antes de nos tornarmos mães, mas ao meu ver, depois da maternidade isso evolui para algo insano! Por que é tão fácil levantar o dedo para apontar alguém antes de olhar para si mesma?

dedo apontado

Será que a gente (sim, eu me incluo nessa!) não consegue perceber que é um buraco negro que só gera insatisfação, ansiedade e tensão para as nossas próprias vidas? Tudo começa quando engravidamos… Quem se lembra das perguntas? “Nossa, mas você não acha que está engordando muito?”, “Você já sabe qual tipo de parto?”, “Você não vai se exercitar?”, “Você não vai parar de treinar?”, “Você já vai parar de trabalhar?”, “Você ainda está trabalhando?”, “Você nâo vai arrumar o cabelo?”, “Você vai arrumar o cabelo?” e assim por diante…

Aí seu/sua filho (a) nasce e… O julgamento só aumenta a medida que o tempo passa! É a amamentação, o método para fazer dormir, a alimentação, se a criança dá chilique em público, se você vai buscar na escola, se a criança volta de perua escolar. Tudo é julgado! Não desgruda do filho? Tome julgamento! Deixa o filho para passear ou viajar a sós com o marido? Que péssima mãe você é! Bebê usa chupeta? Péssima mãe! Não deu chupeta pro bebê e ele não pára de chorar?! Bruxa!

Eu me lembro que vivenciei duas situações que me deixaram muito triste e chocada, logo nos primeiros meses da Vicky. A primeira situação foi quando me deparei com comentários horríveis por eu deixar minha bebê por 1 hora para ir para a academia treinar… Não, não era todo dia, nem o dia inteiro, mas mesmo assim senti o julgamento na pele. Não foi nem fofoquinha não, tinha gente que se achava no direito de chegar e comentar: “nossa, vc tentou tanto engravidar pra largar sua bebê para vir pra academia?!”. Logo depois, meu leite secou (antes que pensem, não… não foi pela atividade física!) e a Vicky teve o diagnóstico de intolerância à proteína do leite. Mais uma vez, as pessoas não tinham pudores em falar: “Nossa, ela já foi pra mamadeira?! Você nem tentou amamentar, que desnaturada!”. Sofri muito e eu, que sempre tive resposta para tudo, muitas vezes me calei…

De repente, você vê as imagens da moça no celular sentada numa cadeira no aeroporto, com o bebezinho deitado sobre uma coberta, no chão… Confesso que a imagem me deixou incomodada, mas me incomodou muito mais a velocidade e a agressividade que as pessoas usaram para comentarem a foto. A mãe foi xingada de todos os nomes possíveis e imagináveis. Quem aparece na foto é a norte-americana Molly Lensing, que viajava de volta para casa do Colorado, onde visitou seu irmão, sozinha com a filha, de 2 meses. A imagem foi tirada no Aeroporto Internacional Hartsfield-Jackson, em Atlanta, EUA, onde ela esperava por uma conexão há dias. Por conta de uma falha no sistema de informática da companhia Delta Airlines, seu vôo, assim como o de todos os outros passageiros da aeronave, atrasou muito. A própria companhia fez declaração pública assumindo responsabilidade pelo atraso.

Imagem do site Catraca Livre
Imagem do site Catraca Livre
A minha reflexão é: por que estamos perdendo cada vez mais a nossa capacidade como seres humanos de sermos empáticos com outras pessoas? Depois a foto foi explicada, a mãe estava há um tempão no aeroporto, vôos cancelados, ela sozinha… Mas nada disso contou. O que contou foi o clique de uma foto que permitiu o mundo todo dar sua opinião sem saber o que estava acontecendo… O que contou foi a liberdade que as pessoas acham que tem em julgarem as outras sem a menor cerimônia (e mesmo depois de explicado, muitos comentários ofensivos foram feitos). Quando é que perdemos a capacidade de tolerância umas com as outras (no caso das mães)? O que estamos ensinando aos nossos filhos? Que visão de mundo as crianças terão?

Eu sei, mundo perfeito (assim como pessoas perfeitas) não existe, mas tolerância, empatia, capacidade de se colocar no lugar do outro e bondade são princípios que devem ser ensinados em casa. A melhor maneira de ensinar é através das ações e não da fala… Vamos tentar?

About the author

Giuliana Pierri, psicóloga clínica e mãe da Victoria. É extrovertida e fala até com as paredes. Sempre gostou de moda e, como mãe de menina, expandiu o seu interesse também por moda infantil. A maternidade me desacelerou um pouquinho (só um pouquinho!) e me proporcionou um pouco mais de paciência para aproveitar a vida ao lado da minha família.

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